O estado de penúria dos lavradores do Espírito Santo (Revista O Malho - 1908)<br />AO POVO - A DEMONSTRAÇÃO DA SUA MISERIA<br /><br />Foi assumpto do nosso numero passado a lavoura do Estado de Minas, cuja situação ficou patente numa carta lida ao Congresso de Lavradores reunido em Leopoldina - carta synthetica do mal estar geral da classe agricola do grande Estado.<br />Accrescentamos a essa detalhada exposição que a lavoura de todo o Brazil se via a braços com egual crise, oriunda, principalmente, da comprovada inepcia e parlapatice dos nossos pseudos estadistas.<br />Veja o povo o que diz uma correspondencia do Estado do Espirito Santo, depois de provar que os impostos estadoaes, municipaes e federaes absorvem não só o pequeno lucro, mas o proprio capital do misero lavrador:<br /><br />«Hoje tanto vale a grande fazenda como a simples situação, porque ambas nada garantem. O producto da lavoura, vendido, não dá para o sal, a roupa, a ferramenta, o kerozene, e para pagar o salario do companheiro de eiro, do patrão.<br />O lavrador, reduzido a condição de um paria, ignora o que sejam os suaves lazeres de uma vida tranquilla. <br />Seus filhos não têm escolas, que lh'as não dão os poderes publicos; sua habitação assume o aspecto repulsivo de ruinas, que lhe não ficam sobras pecuniarias para os indispensaveis reparos. Não, elle não póde viver tranquillo. <br />O turco ameaçador e inexoravel, que lhe fiou algum genero, não tarda a vir apoderar-se do café que está seccando no terreiro; e a figura sinistra do fiscal municipal tambem não se faz esperar muito tempo. A familia nunca vai a festas. <br /><br />As crianças desconhecem os brincos da infancia...<br />Quando enfermos, morrem sem assistencia medica' baldos de recursos, ou recorrendo ao empirismo dos curandeiros espiritistas...<br />A formiga devasta as plantações, o fisco devora o resto...<br />Aquelles severos costumes de outros tempos, a prece em familia, á noite, no recinto amoravel do lar, não mais existem... Queixas, lamentações e descrenças... Não se respeita mais nada, e aos que governam dão-seos epithetos mais deshonrosos.<br /><br />Quem viaja pelas roças vê, com a alma revoltada, meninas puberes, que, semi-núas, envergonhadas, correm para se esconder sob o folhedo; estão assim porque aos pais fallecem meios e não podem comprar, siquer, a roupa grossa do serviço para as pobresinhas.<br />Por falta de dinheiro tambem raramente se recorre á justiça. <br />As questões resolvem-se summariamente, a bala. Os rapazes, desempregados, entregam-se à pratica de falcatruas, de onde vão baixando até o roubo, ao salteio, ao crime com mão armada, amiudando-se taes casos com geral inquietação».<br />Depois deste quadro traçado por mão de mestre e flagrante de verdade, occorre-nos transcrever uns justissimos commentarios ácerca de outro assumpto que se relaciona intimamente com o que vimos expondo.
