No dia 6 de fevereiro, cheguei em casa e me depa-<br />rei com uma cena de filme de terror. Havia sangue para<br />todos os lados, e minha menina, minha única filha, Alana,<br />de 20 anos de idade, estava sendo brutalmente esfaqueada<br />por um homem de quem ela havia rejeitado flertes insis-<br />tentes e indesejados. Trabalho como motorista de van es-<br />colar e, naquele dia fatídico, eu deveria buscar uma crian-<br />ça na creche às 19h, mas a mãe dela me avisou que não se-<br />ria mais necessário. Sendo assim, pude voltar mais cedo<br />para casa — moramos em São Gonçalo, na região metro-<br />politana do Rio de Janeiro. Se não fosse por essa coinci-<br />dência, teria encontrado apenas o corpo sem vida da mi-<br />nha filha. Assim que cheguei, escutei os gritos desespera-<br />dos de Alana. Corri e empurrei seu agressor o mais forte<br />que pude, enquanto gritava por socorro. Vizinhos vieram<br />nos ajudar e levamos minha filha correndo para o hospi-<br />tal. No mesmo dia do ataque, policiais prenderam o crimi-<br />noso. Hoje, mais de três meses após a quase tragédia, Ala-<br />na se recupera dos ferimentos e do trauma, enquanto seu<br />agressor, Luiz Felipe Sampaio, 22, está preso, aguardando<br />os trâmites do Judiciário para ir a julgamento ou não. Es-<br />tou lutando com todas as minhas forças para que Alana<br />obtenha justiça — e que, assim, esse caso sirva de exemplo<br />para que outras mulheres não venham a ser vítimas dos<br />tenebrosos casos de feminicídio que assolam nosso país.<br /><br />Alana é uma jovem estudiosa, criada com muito amor.<br />Ela sonha em ser médica e vem se dedicando aos estudos<br />para alcançar esse objetivo. Para amenizar a rotina inten-<br />sa com os livros didáticos e o cursinho, buscou uma ativi-<br />dade física, a fim de melhorar a saúde mental. Eu sou uma<br />frequentadora assídua da academia e minha filha passou<br />a me acompanhar para treinarmos juntas. Foi lá que o<br />agressor de Alana a avistou. Começamos a receber pre-<br />sentes em casa de um admirador secreto, com flores e<br />chocolates chegando sem identificação. Sem saber a pro-<br />cedência, jogávamos tudo no lixo. Luiz Felipe começou a<br />nos seguir nas redes sociais e, apesar de sermos discretas,<br />aceitamos a conexão virtual sem preocupação, afinal, o<br />conhecíamos de vista do bairro. Um dia, ele enviou men-<br />sagens para Alana, se declarando e afirmando que os pre-<br />sentes eram dele. Minha filha conversou comigo sobre o<br />assunto e ressaltou que não tinha o menor interesse em se<br />relacionar com ele. Alana respondeu de forma educada as<br />mensagens, agradecendo os gestos e explicando que esta-<br />va focada em outras coisas. O rapaz disse entender, mas<br />não aceitou a rejeição como parecia.<br /><br />Um dia antes do ataque, ele tentou invadir a nossa casa<br />pela primeira vez, pulando na garagem, mas recuou por-<br />que nossa cadela, a Morena, avançou nele. Alana escutou<br />os latidos e fechou a casa toda por segurança. O caso foi<br />tão premeditado que, no dia seguinte, ele entrou através<br />de um buraco no nosso telhado — e suspeito que tenha<br />dado alguma droga para Morena, que não reagiu no mo-<br />mento. Não tive tempo de investigar iss
